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Comentário à Liturgia do III Domingo da Quaresma - Ecclesia

Comentário à Liturgia do III Domingo da Quaresma - Pe. Manuel Barbosa

Liturgia e Comentários do III Domingo da Quaresma do Ano C

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Mesa de palavras (Textos de D. António Couto) 

Estamos no tempo da Quaresma, que se prolongará desde a passada 1uarta-feira de cinzas até à Missa da Ceia do Senhor. Ao longo deste tempo, que se estende por 40 dias, somos convidados a uma permanente conversão, a uma caminhada mais aprofundada que vá de encontro ao caminho que Jesus nos testemunhou e nos propõe. É o tempo que nos ajuda a preparar a celebração da Páscoa!

A cor deste tempo litúrgico é o roxo que significa uma atitude de penitência, arrependimento e conversão.

O tempo da Quaresma é por excelência um tempo de perdão e da reconciliação fraterna. Cada dia, durante a nossa vida, somos convidados por Deus a retirar dos nossos corações o ódio, o rancor, a inveja e aquilo que nos afasta de Dele e dos irmãos. Na Quaresma somos convidados a reflectir e amar a Cruz de Jesus. Com isto aprendemos também a tomar nossa cruz com tranquilidade para que o Reino habite o mundo em cada dia.

A duração da Quaresma de 40 dias é uma simbologia Bíblica. Recordemos: os quarenta dias do dilúvio, os quarenta anos de peregrinação do povo judeu pelo deserto, os quarenta dias e Moisés e de Elias na montanha, os quarenta dias que Jesus passou no deserto antes de começar sua vida pública…

Salmo 51 - composto a partir do salmo por Gregorio Allegri (sec.XVII)

Salmo 51 para rezar na Quaresma

 51 (50) PRECE DE UM CORAÇÃO CONTRITO (MISERERE)

Salmo individual de súplica. Tradicionalmente é conhecido como o “Miserere”, palavra com a qual começa, na sua tradução latina, a Vulgata. É o salmo mais conhecido sobre o arrependimento. Dado tratar do arrependimento pelo pecado, pertence ao número dos “salmos penitenciais”. Aceitando a sua relação com David, como aparece no título (v.1-2), terá de se considerar os dois últimos versículos como um acrescento dos tempos posteriores ao Exílio.

1Ao director do coro. Salmo de David.
2Quando o profeta Natan foi ao seu encontro,

depois do adultério com Betsabé.
3Tem compaixão de mim, ó Deus, pela tua bondade;

pela tua grande misericórdia, apaga o meu pecado.
4Lava-me de toda a iniquidade;

purifica-me dos meus delitos.
5Reconheço as minhas culpas

e tenho sempre diante de mim os meus pecados.
6Contra ti pequei, só contra ti,

fiz o mal diante dos teus olhos;
por isso é justa a tua sentença

e recto o teu julgamento.
7Eis que nasci na culpa

e a minha mãe concebeu-me em pecado.
8Tu aprecias a verdade no íntimo do ser

e ensinas-me a sabedoria no íntimo da alma.
9Purifica-me com o hissope e ficarei puro,

lava-me e ficarei mais branco do que a neve.
10Faz-me ouvir palavras de gozo e alegria

e exultem estes ossos que trituraste.
11Desvia o teu rosto dos meus pecados

e apaga todas as minhas culpas.
12Cria em mim, ó Deus, um coração puro;

renova e dá firmeza ao meu espírito.
13Não me afastes da tua presença,

nem me prives do teu santo espírito!
14Dá-me de novo a alegria da tua salvação

e sustenta-me com um espírito generoso.
15Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos

e os pecadores hão-de voltar para ti.
16Ó Deus, meu salvador, livra-me do crime de sangue,

e a minha língua anunciará a tua justiça.
17Abre, Senhor, os meus lábios,

para que a minha boca possa anunciar o teu louvor.
18Não te comprazes nos sacrifícios

nem te agrada qualquer holocausto que eu te ofereça.
19O sacrifício agradável a Deus é o espírito contrito;

ó Deus, não desprezes um coração contrito e arrependido.
20Pela tua bondade, trata bem a Sião;

reconstrói os muros de Jerusalém.
21Então aceitarás com agrado os sacrifícios devidos,
os holocaustos e as ofertas;

então serão oferecidos novilhos no teu altar.

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA A QUARESMA DE 201
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«A criação encontra-se em expetativa ansiosa,
aguardando a revelação dos filhos de Deus»
(Rm 8, 19)

Queridos irmãos e irmãs!

Todos os anos, por meio da Mãe Igreja, Deus «concede aos seus fiéis a graça de se prepararem, na alegria do coração purificado, para celebrar as festas pascais, a fim de que (…), participando nos mistérios da renovação cristã, alcancem a plenitude da filiação divina» (Prefácio I da Quaresma). Assim, de Páscoa em Páscoa, podemos caminhar para a realização da salvação que já recebemos, graças ao mistério pascal de Cristo: «De facto, foi na esperança que fomos salvos» (Rm 8, 24). Este mistério de salvação, já operante em nós durante a vida terrena, é um processo dinâmico que abrange também a história e toda a criação. São Paulo chega a dizer: «Até a criação se encontra em expetativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19). Nesta perspetiva, gostaria de oferecer algumas propostas de reflexão, que acompanhem o nosso caminho de conversão na próxima Quaresma.

1. A redenção da criação

A celebração do Tríduo Pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo, ponto culminante do Ano Litúrgico, sempre nos chama a viver um itinerário de preparação, cientes de que tornar-nos semelhantes a Cristo (cf. Rm 8, 29) é um dom inestimável da misericórdia de Deus.

Se o homem vive como filho de Deus, se vive como pessoa redimida, que se deixa guiar pelo Espírito Santo (cf. Rm 8, 14), e sabe reconhecer e praticar a lei de Deus, a começar pela lei gravada no seu coração e na natureza, beneficia também a criação, cooperando para a sua redenção. Por isso, a criação – diz São Paulo – deseja de modo intensíssimo que se manifestem os filhos de Deus, isto é, que a vida daqueles que gozam da graça do mistério pascal de Jesus se cubra plenamente dos seus frutos, destinados a alcançar o seu completo amadurecimento na redenção do próprio corpo humano. Quando a caridade de Cristo transfigura a vida dos santos – espírito, alma e corpo –, estes rendem louvor a Deus e, com a oração, a contemplação e a arte, envolvem nisto também as criaturas, como demonstra admiravelmente o «Cântico do irmão sol», de São Francisco de Assis (cf. Encíclica Laudato si’, 87). Neste mundo, porém, a harmonia gerada pela redenção continua ainda – e sempre estará – ameaçada pela força negativa do pecado e da morte.

2. A força destruidora do pecado

Com efeito, quando não vivemos como filhos de Deus, muitas vezes adotamos comportamentos destruidores do próximo e das outras criaturas – mas também de nós próprios –, considerando, de forma mais ou menos consciente, que podemos usá-los como bem nos apraz. Então sobrepõe-se a intemperança, levando a um estilo de vida que viola os limites que a nossa condição humana e a natureza nos pedem para respeitar, seguindo aqueles desejos incontrolados que, no livro da Sabedoria, se atribuem aos ímpios, ou seja, a quantos não têm Deus como ponto de referência das suas ações, nem uma esperança para o futuro (cf. 2, 1-11). Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais.

Como sabemos, a causa de todo o mal é o pecado, que, desde a sua aparição no meio dos homens, interrompeu a comunhão com Deus, com os outros e com a criação, à qual nos encontramos ligados antes de mais nada através do nosso corpo. Rompendo-se a comunhão com Deus, acabou por falir também a relação harmoniosa dos seres humanos com o meio ambiente, onde estão chamados a viver, a ponto de o jardim se transformar num deserto (cf. Gn 3, 17-18). Trata-se daquele pecado que leva o homem a considerar-se como deus da criação, a sentir-se o seu senhor absoluto e a usá-la, não para o fim querido pelo Criador, mas para interesse próprio em detrimento das criaturas e dos outros.

Quando se abandona a lei de Deus, a lei do amor, acaba por se afirmar a lei do mais forte sobre o mais fraco. O pecado – que habita no coração do homem (cf. Mc 7, 20-23), manifestando-se como avidez, ambição desmedida de bem-estar, desinteresse pelo bem dos outros e muitas vezes também do próprio – leva à exploração da criação (pessoas e meio ambiente), movidos por aquela ganância insaciável que considera todo o desejo um direito e que, mais cedo ou mais tarde, acabará por destruir inclusive quem está dominado por ela.

3. A força sanadora do arrependimento e do perdão

Por isso, a criação tem impelente necessidade que se revelem os filhos de Deus, aqueles que se tornaram «nova criação»: «Se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas» (2 Cor 5, 17). Com efeito, com a sua manifestação, a própria criação pode também «fazer páscoa»: abrir-se para o novo céu e a nova terra (cf. Ap 21, 1). E o caminho rumo à Páscoa chama-nos precisamente a restaurar a nossa fisionomia e o nosso coração de cristãos, através do arrependimento, a conversão e o perdão, para podermos viver toda a riqueza da graça do mistério pascal.

Esta «impaciência», esta expetativa da criação ver-se-á satisfeita quando se manifestarem os filhos de Deus, isto é, quando os cristãos e todos os homens entrarem decididamente neste «parto» que é a conversão. Juntamente connosco, toda a criação é chamada a sair «da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). A Quaresma é sinal sacramental desta conversão. Ela chama os cristãos a encarnarem, de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal na sua vida pessoal, familiar e social, particularmente através do jejum, da oração e da esmola.

Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade.

Queridos irmãos e irmãs, a «quaresma» do Filho de Deus consistiu em entrar no deserto da criação para fazê-la voltar a ser aquele jardim da comunhão com Deus que era antes do pecado das origens (cf. Mc 1,12-13; Is 51,3). Que a nossa Quaresma seja percorrer o mesmo caminho, para levar a esperança de Cristo também à criação, que «será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). Não deixemos que passe em vão este tempo favorável! Peçamos a Deus que nos ajude a realizar um caminho de verdadeira conversão. Abandonemos o egoísmo, o olhar fixo em nós mesmos, e voltemo-nos para a Páscoa de Jesus; façamo-nos próximo dos irmãos e irmãs em dificuldade, partilhando com eles os nossos bens espirituais e materiais. Assim, acolhendo na nossa vida concreta a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, atrairemos também sobre a criação a sua força transformadora.

Vaticano, Festa de São Francisco de Assis, 4 de outubro de 2018.

 Franciscus

 

Oração para a Quaresma

 

 

 

 

 

Eis-me diante de Ti Senhor,

obrigado pela graça de mais um tempo favorável à minha conversão.
Ajuda-me a vive-lo no segredo onde me vês, me amas e me esperas.

Sei que as coisas exteriores têm a sua importância.
Mas quero vive-Ias na tua presença.

Ensina-me a distinguir o essencial do supérfulo para saber viver bem a Quaresma.

Que os pensamentos, atitudes e acções que tomar neste tempo
e em toda a minha vida me conduzam a Ti e ao amor aos irmãos.

Que a oração, o jejum e a caridade fraterna; me ensinem a viver na humildade do amor.

Infunde em mim o Espírito Santo para que me guie durante esta Quaresma.

Amen.

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